Abordar Carlos Relvas será sempre ingrato! Ingrato, porque indubitavelmente as nossas palavras serão sempre incompletas e insuficientes para descrever esta personalidade de fidalgo da época, de grand seigneur e de um gentleman farmer que a Golegã, a cuja Câmara muito nos honra presidir e de cujo pelouro da cultura somos responsáveis, teve como ilustre filho e de que dela foi embaixador nas artes e nas ciências. Ficarão sempre aquém, pelo perfil e pela personalidade distintos, desta figura admirável pela sua cultura de espírito e pelos horizontes que de forma vate e precoce vislumbrou, sendo reconhecido e exaltado pelos seus inter pares e nível internacional.

 

Ecléctico e polivalente, além de lavrador foi cavaleiro exímio, cujos cavalos peninsulares mostravam a boa ligação dos bons princípios equestres á arte de tourear do dono. Inventor, cujo espírito criativo propiciou, na época, soluções arrojadas e interessantíssimas. Musico, que através do seu Stradivarious expressava a sua fina sensibilidade, mas sobretudo iniciador da nova arte - a fotografia - á qual dedicou grande parte do seu tempo e da sua vida e que o veio a demarcar pela obra que chegou até aos nossos dias, tornando-se num interessante testemunho de locais e formas de viver do século XIX registados pela objectiva deste artista emérito que viu o seu trabalho premiado em exposições internacionais como as de Madrid, Paris, Bruxelas, Amesterdão, Viena e Filadélfia.

As técnicas avançadas e os materiais usados associados ao seu espírito de investigador foram alguns dos factores que ditaram a execução de trabalhos, onde se reconhece o estudo e a divulgação da fototipia, que integram o espólio que nos legou e o fez ser agraciado com inúmeras condecorações nacionais e estrangeiras.

E o palco e o cenário escolhido, para a sua criatividade? A Casa Estúdio cuja construção iniciou em 1872 e terminou três anos depois, absolutamente original em termos europeus, arquitectonicamente eclética, quer do ponto de vista decorativo quer do ponto de vista estrutural, no âmbito da nova arquitectura de ferro, obedecendo a uma tipologia sem quaisquer precedentes conhecidos, nascendo o chalet especificamente para a actividade a que se reportava - a fotografia.

No centro histórico da vila da Golegã, o então Palácio Relvas, mais tarde paços do concelho que um brutal incêndio destruiu, olhava para o fundo do jardim onde este chalet se encontrava e que mais tarde veio a ser reconvertido em casa de habitação e que hoje, Deo gratias, se encontra totalmente recuperado e reabilitada na sua traça original, preservando-se, assim, um dos imóveis mais interessantes e integrantes do património nacional e único no mundo, que albergará para sempre de forma digna as obras que ali nasceram. A Golegã, num futuro muito breve, será ponto de convergência, de expressão internacional, de todos aqueles que se interessam pelo estudo, pela história e pela divulgação da fotografia, continuando assim, a honrar a memória de tão distinto filho, o senhor Carlos Relvas.

Paços do Concelho da Golegã, aos 10 Maio 2003

José Veiga Maltez Presidente da Câmara Municipal da Golegã